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sexta-feira, 8 de abril de 2016

Como desenvolver o espírito crítico?

   Meus caros:

   Há algum tempo em uma palestra em que falava sobre a carreira de Juiz Federal uma estudante me fez uma pergunta bem interessante. Disse ela: "professor, eu queria saber como podemos desenvolver o espírito crítico, já que foi mencionado na palestra ser de grande importância para um Magistrado?"

   Bem, eu  quero esclarecer antes de tudo que não sou propriamente um professor. Seria muito bom se tivesse o dom e a capacidade de ensinar dos grandes mestres que tive na vida. Infelizmente nesse ponto ainda sou um aprendiz. De qualquer modo me esforço para, como um bom aluno, tentar compartilhar com os outros estudantes um pouco daquilo que tenho aprendido.  

   Nesse contexto, em primeiro lugar me parece oportuno explicar porque o espírito crítico é importante para um Juiz Federal ou, a meu ver, em qualquer carreira e mesmo nas atividades em geral. A resposta pode parecer óbvia, mas isso não elimina o fato de que muitas pessoas simplesmente não se preocupam em desenvolver a capacidade de pensar por si mesmas, que no fundo é uma boa forma de definir o que seja espírito crítico. Ora, em um mundo cada vez mais repleto de informações, disponíveis em todo o lugar e a toda hora, a capacidade de analisar de forma criteriosa toda informação recebida é fundamental para que se consiga filtrar o que presta do que não presta e, assim, ter-se uma informação de qualidade e confiável em mãos.

    Pois bem, dito isso, e tentando ainda hoje encontrar uma boa resposta para a pergunta que me foi feita, venho pensando que a prática reflexiva é algo fundamental para desenvolver o chamado espírito crítico. E o que é prática reflexiva? É a atitude constante de pensar sobre o que se está vendo, lendo, assistindo, ouvindo e percebendo em relação ao mundo. Não só em relação ao mundo exterior, mas também, e talvez especialmente, em relação ao nosso mundo interior, que é repleto de sentimentos e pensamentos que muito comumente deixamos passar ou até preferimos deixar passar despercebidos.

   Complexo isso, não? Com toda certeza algo não só complexo, mas também difícil de ser feito. Bem mais fácil simplesmente ir seguindo em frente, sem pensar muito, apenas vivendo e deixando viver. Não que viver e deixar viver seja uma filosofia de vida ruim, quero deixar claro. Tem seus pontos positivos e é algo bem adequado para diversos momentos da vida. Mas em termos de desenvolver o espírito critico, que é o nosso tema, não tem grande eficiência.
 
   Muito bem, então como fazer para, no dia-a-dia, incorporar o hábito da prática reflexiva, do pensar sobre o que acontece ao nosso redor e dentro de nós mesmos? Penso que o ponto inicial fundamental é olharmos para dentro de nós mesmos e estarmos atentos as nossas reações, nossos motivos, nossos sentimentos. Tentar entender e conhecer a si mesmo é um grande ponto de partida. E esse ponto de partida deve ser renovado a cada dia. Depois podemos olhar para fora e tentar entender um pouco as razões e os motivos dos outros. Aceitar a diversidade, compreender que o outro tem medos, preocupações e angústias como nós também temos e que podem explicar o porquê de atitudes tão sem sentido que adotamos e que os outros adotam. Isso nos dará, ao longo do tempo, uma boa visão crítica dos aspectos psicológicos que movem o mundo.

   Para além dos aspectos psicológicos é fundamental, para aprofundar o espírito crítico, analisar e refletir sempre sobre os pressupostos do que é dito. Não necessariamente para concluir que os pressupostos estão errados. Muitas vezes para concluir que a informação é boa, que a ideia faz sentido. E nesse contexto é importante lembrarmos de questionar igualmente nossos próprios pressupostos, que também podem estar equivocados.

  A partir daí, fazendo uma reflexão que considera quem eu sou e o que é importante para mim no mundo, bem como com a compreensão sobre os outros e sobre os pressupostos das informações que eu emito e recebo, é possível chegar a um resultado de conclusões sobre o que realmente para mim tem sentido e o que não tem o mínimo fundamento. E assim eu formo uma opinião crítica sobre um assunto, passando a ter condições de observar aspectos como quais as fontes das informações, quais os interesses envolvidos na questão e onde se inserem nesses interesses cada um dos atores envolvidos (incluindo eu mesmo). É importante observar que quando falo em interesses envolvidos não são só interesses financeiros, mas também interesses em termos de ideologias, de culturas, de valores, de posição social, entre outros, que influenciam o que cada um pensa sobre um determinado assunto.

   Enfim, o questionamento dos pressupostos, a observação dos atores envolvidos no processo, a seleção das fontes de informação e a reflexão sobre todos esses aspectos desenvolve o espírito crítico, ou seja, a capacidade de pensar por si mesmo na formulação de ideias e soluções, tanto no âmbito pessoal como profissional. O resultado será ainda melhor se aliarmos essa postura de desenvolver o espírito crítico com a busca de nossa melhoria pessoal contínua, pois aí nossa capacidade de pensar por nós mesmos será desde logo aproveitada para o aprimoramento de nossas competências.

   Quero concluir tentando deixar as coisas mais claras apresentando um exemplo bem trivial do que estou falando. Outro dia uma amiga da minha esposa contou a ela sobre um super aspirador de pó que usa um revolucionário sistema de filtro de água desenvolvido na Alemanha. Ela disse que o sistema era sensacional e que era incrível como a água ficou preta depois dos testes que o vendedor fez na casa dela. Por tudo o que ela nos descreveu o produto pareceu ser muito bom. O problema, contudo, era o preço. Cerca de R$ 5 mil. Algo para mim bastante caro em termos de um aspirador de pó. Mas a proposta do produto era boa: eliminar ácaros, bactérias e toda a sujeira da casa. Então resolvi pesquisar se não haveria alguma alternativa mais em conta. Para isso fiquei uns dois dias pesquisando na internet e lendo artigos de tudo quanto é tipo sobre sistemas de filtro de pó. Assisti também ao vídeo de demonstração do fabricante e li algumas análises de usuários. Até que me deparei com um artigo científico que tratava sobre os filtros de aspirador de pó. Nesse artigo havia referência a um filtro chamado HEPA, indicando que esse tipo de filtro teria uma eficiência de 99,7% na filtragem do pó. Isso me chamou a atenção, pois o valor era igual ao do sistema de filtragem com água. Comecei a pesquisar sobre filtros HEPA e a partir disso conclui que era um sistema eficiente, de forma que eu poderia ter um bom sistema de filtragem de pó se adquirisse um aspirador de pó com filtro HEPA. Para minha surpresa nem isso precisava fazer, posto que ao checar nosso aspirador de pó descobri que ele era justamente com o sistema de filtro HEPA. Só precisava limpá-lo periodicamente e fazer a substituição do filtro quando estivesse velho. Isso ao custo do aspirador em torno de R$ 350,00. Foi uma boa noticia para mim essa constatação. De qualquer forma, para tirar qualquer dúvida, resolvi fazer um teste igual ao do vídeo do aspirador com o filtro de água. Fiz a limpeza do filtro HEPA e botei meus travesseiros dentro de um saco plástico de embalagem com sistema de vácuo. Aspirei os travesseiros e minha cama. Ao final o reservatório do filtro estava com uma boa quantidade de pó. Joguei esse pó na água e ela ficou escura como no vídeo promocional do aspirado com filtro de água.
   
   Esse é um exemplo muito simples de como aproveitar toda e qualquer situação para desenvolver o espírito crítico. Além de mostrar que isso tem grande relevância prática. Ao buscar uma resposta sobre se aquela solução espetacular para a limpeza da minha casa seria a única solução que atenderia minha necessidade eu tive que questionar o pressuposto de que o filtro de água seria um sistema sem igual de filtragem de pó. Também tive que refletir sobre o interesse do vendedor em mostrar que o produto dele era único para concluir que precisava de mais informações. Mas a existência do interesse do vendedor não queria dizer que a informação dele não era correta. Por isso tive que continuar minha pesquisa e minha análise crítica para buscar elementos técnicos e evidências científicas que confirmassem ou não que aquela era a única solução para uma excelente limpeza de minha casa. E nesse processo todo tive que ter atenção a um detalhe importante: o meu próprio interesse em encontrar uma alternativa mais barata. Isso deve ser sempre considerado. Porque obviamente a vontade de encontrar uma solução tão eficiente quanto e a um custo menor exerceu grande influencia nas pesquisas feitas. Por isso procurei fazer os testes finais empíricos que mostrassem algum nível de acerto de minha conclusão. Digo algum nível porque o teste foi empírico, de forma que ainda hoje não descarto a possibilidade de ao final o sistema do filtro com água ser melhor que o HEPA. Mas dentro de uma solução razoável estou convencido que o sistema do filtro HEPA é suficientemente bom para aquilo que preciso, considerando também uma relação razoável de custo/benefício. Aliás, é interessante notar, diante das minhas conclusões no caso, que a prática reflexiva pode não terminar nunca, já que quando chego a alguma conclusão sobre algo estou apenas definindo novos pressupostos, os quais sempre podem ser questionados. Registro, contudo, que às vezes é bom saber também o momento certo de interromper a prática reflexiva sobre um determinado assunto para simplesmente viver e deixar viver. Por exemplo, sem pensar mais em eficiências de sistemas de aspiração de pó. Ao menos por enquanto.

   É isso, meus caros. Quero fazer um agradecimento especial, ao final dessa postagem, ao Professor José Carlos Zanelli, do Instituto Zanelli, de Florianópolis-SC, que ministrou um curso inovador à distância sob o título de "Prática Reflexiva das Ações Gerenciais", que tive a oportunidade de participar. Ao longo de 13 encontros mensais foi possível ampliar o conhecimento de como a prática reflexiva, que já me acompanhava desde antes do curso, pode e deve ser aplicada de diversas maneiras na melhoria dos processos gerenciais e produtivos. Deixo meu agradecimento porque certamente muitas ideias dessa postagem vieram das reflexões feitas durante o curso.  

Um grande abraço,

Emmerson Gazda
artedaexcelencia.blogspot.com

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Você conhece "A fada da felicidade"?

 Meus caros:

   Calma, não vou falar nessa postagem sobre personagens imaginários e suas relações com a busca por uma vida feliz. Até que seria um tema interessante para alguma digressão, mas a questão aqui é muito mais simples. Estou escrevendo essa postagem para fazer um convite de leitura do e-book infantil "A fada da felicidade", que escrevi junto com minha filha de 5 anos e a partir de hoje está disponível para download aqui no blog, no lado direito da página, inaugurando o Espaço kids da Excelência. A versão desse livro, diante das ilustrações, é exclusivamente em PDF. Há também uma versão em videobook para assistir no nosso canal no youtube, com narração da própria "fada da felicidadade".

   Essa é uma obra artesanal, mas nem por isso deixa de ser especial. Fiquei na dúvida, no início, se deveria fazer algo mais elaborado. Certamente minha filha iria gostar do resultado. Mas no fim conclui que o principal nesse projeto era mostrar que com simplicidade podemos conseguir também um resultado muito interessante. Obviamente que pelo menos um exemplar em papel foi feito, na impressora aqui de casa. A vontade de levar o material para a escola era grande. E o resultado, com a leitura do livro em sala de aula, foi muito positivo. O exemplar ficou na escola. Seguiu para a Diretoria, o que nem sempre é notícia ruim.

   Para quem se interessar em brincar com seus filhos de escrever livros digo que foi para mim algo muito divertido. A ideia veio de minha filha. Sempre que a gente lê um livro ela quer saber também do escritor e do ilustrador. Outro dia ela disse que quando crescesse também escreveria um livro. Eu falei prá ela que eu já tinha escrito um livro, mas era para adultos, sem figuras. Ela disse que o dela ia ser prá crianças, com muitos desenhos. Então eu disse que ela já podia escrever o livro. Como ela ainda não sabe escrever eu sugeri que a ajudaria com as palavras. E ela faria as ilustrações. Surgiu o tema das fadas. Depois da felicidade, quando falei sobre o que tratava meu livro "A arte da Excelência". Disso nasceu a história, com ela me contanto como era a felicidade para uma criança. A maior surpresa veio no final, quando ela afirmou que era ela própria a fada da felicidade. Eu observei que ela tinha razão, já que cada um é o grande responsável por sua própria felicidade. 

   Sobre como "brincar" de escrever um livro eletrônico com seu filho a dica é muito simples. Dê uma olhadinha no livro "A fada da felicidade" para ter uma ideia do resultado final. O que fizemos foi primeiro escrever o texto no editor do computador, usando a página no formato paisagem dividida no meio, ou seja, em duas colunas. Ajustamos as margens todas para 1,5 cm e deixamos o texto bem no alto. Imprimimos as folhas em papel A4 e cortamos ao meio. Daí minha filha fez os desenhos conforme sua inspiração para o texto de cada página. Ao final eu fiz uma edição básica copiando e colando os desenhos no "boneco" do livro feito no editor de textos, gravando a seguir o arquivo em PDF. Uma outra solução era escanear tudo na sequência das páginas em um único documento PDF e pronto. As páginas soltas transformam-se em um livro eletrônico. 

   A versão em videobook exige um pouco de domínio de ferramentas de edição de vídeo e áudio no computador. Mas nada muito complexo. A sugestão é escanear as páginas do livro original em .jpg, formato 15 x 21. Depois gravar o som usando algum gravador de voz no celular. O melhor é gravar cada página em um arquivo separado. Vai facilitar na hora de unir as imagens com o som. Depois é só usar um programa de edição de vídeo. Eu usei o windows movie maker, que já veio com meu computador. Uma dica para melhorar a edição do som é usar o programa gratuito audacity. Mas para editar sons em mp3 ou mpeg-4 você terá que instalar os plugins desses formatos. Depois que conseguir instalar a edição é muito fácil. 

   O link https://drive.google.com/file/d/0B8dnrDVkyTsjUUlMcDVUd0h0bnc/view conduz ao e-book "A fada da felicidade" em pdf. A dica é fazer o download no tablet, celular ou computador para ajustar ao tamanho da tela. Direto na visualização do computador a imagem fica muito grande e não permite ajustes.

   Para a versão em videobook, via youtube, acesse https://youtu.be/rIZ3O8DydUM

Um grande abraço, 

Emmerson Gazda

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Ainda vale a pena fazer o "bem"?

 Meus caros:

   Nesses dias tão difíceis que vivemos atualmente em nosso país, com notícias de corrupção por todos os lados e em todas as esferas, seja pública ou privada, muitas pessoas acabam se perguntando se vale a pena continuar fazendo a coisa certa, seguindo pelo caminho do bem. Muitos desistem, desiludidos. Não que passem necessariamente a integrar alguma quadrilha ou esquema de corrupção. Simplesmente deixam de pensar no coletivo e passam a pensar exclusivamente em si mesmos e nas pessoas que fazem parte de sua vida. Eventualmente, se surge alguma situação eticamente dúbia, que muitos chamam de pequenos atos de corrupção, acabam se convencendo que no meio de tantas coisas que estão acontecendo cada um precisa se defender como pode e assim seguem pelo caminho individualista, em que o certo e o errado muda seus limites conforme cada situação concreta vivenciada. Com isso perde muito a sociedade e surge um grande vazio social que permite o crescimento daquilo que não é bom e o ofuscamento das virtudes, do otimismo social e da confiança uns nos outros.

   Quando eu penso sobre isso tudo acabo sempre procurando fazer alguma analogia histórica para sabermos se no fim das contas estamos pior ou melhor que no passado. Nunca consegui chegar a uma conclusão razoável. Em certas coisas estamos melhores, em outras piores. Invariavelmente, contudo, lembro-me dos tempos de criança, das histórias dos Evangelhos lidas quando minha mãe me levava à missa, em que escutava o relato que o mundo na época passava por uma situação bastante semelhante ao que temos hoje, se olharmos sob o ponto de vista dos valores sociais e morais. Tanto que, pelos Evangelhos, Deus acabou enviando o próprio Filho para trazer uma luz para a humanidade.

   Pois bem, algo que me chama a atenção no relato dos evangelistas é que depois de tudo o que acontece na vida de Jesus, com a indicação de um caminho de salvação pela fé e boas obras, Ele é crucificado e morto. Ao Seu lado são crucificados 2 ladrões. Um deles, conta Lucas, zomba de Jesus e diz que se Ele é mesmo o filho de Deus deveria salvar os três da morte. Talvez tenha dito algo como: "você devia ter aproveitado que uma multidão Te seguia; se tivesse pedido dez reais de cada um pela refeição no dia do Sermão da Montanha ficava rico, dava um dinheiro para Pilatos e teria amplas condições de divulgar a Tua mensagem para um público cada vez maior; acabou sendo fiel ao que prega e deu nisso!" Mas o outro ladrão revelou respeito e fé em Jesus, pediu misericórdia e acabou perdoado, com a promessa de no mesmo dia estar com Ele no Paraíso.

   Aqui surge uma reflexão interessante que já ouvi de muitas pessoas. Elas dizem o seguinte: "viu como não vale seguir o caminho do bem? Se no final basta se arrepender e todos vão ser salvos então tanto faz, pois não é minimamente justo isso!" De fato, não parece ser justo. Como não parece justo a gente acordar todo dia e tentar fazer as coisas certas, procurar ajudar os outros, cuidar com carinho de todos que fazem parte da nossa vida e de repente vermos tantas coisas erradas sendo feitas, algumas vezes inclusive contra nós mesmos e talvez até pelas pessoas pelas quais tanto nos dedicamos. Como pode isso?

   É interessante, sobre esse assunto, que no Evangelho de Mateus Jesus conta uma parábola que muitas vezes me trouxe esse mesmo sentimento de injustiça, ao relatar que um homem contratou pela manhã pessoas para trabalhar em sua vinha por um denário, moeda da época. Durante todo o dia, desde cedo até por volta das 5 da tarde, foi chamando mais e mais pessoas para auxiliar no serviço e combinou pagar o que fosse justo, sem indicar um valor. No final do dia pagou a todos um denário, mesmo para os que iniciaram o serviço por último. Aliás, estes receberam em primeiro lugar, diz Mateus. Claro que isso causou uma certa revolta nos que trabalharam desde pela manhã, pelo sentimento de injustiça. Mas o dono da vinha disse que não havia injustiça porque pagou-lhes o que havia sido combinado, ou seja, um denário.

   Bom, já ouvi várias explicações sobre essa parábola, mas nunca tinha conseguido compreender esse senso de justiça divino. Até que um dia, em Curitiba, em um culto da Igreja Luterana, um Pastor mencionou algo que me pareceu interessante. Disse ele que a vinha é o projeto do Reino de Deus, que podemos, com as devidas ressalvas, universalizar para todas as crenças como o projeto de fazer o bem. Os trabalhadores somos todos nós. E o dia de trabalho é a vida inteira de cada um. Nesse ponto, quem começa a trabalhar nesse projeto mais cedo, logo de manhã, tem uma vida inteira envolvida pelo amor e pela alegria de participar de algo grandioso, que preenche a alma e a existência de significado e sentido. Quem chega no fim do dia também recebe a mesma recompensa de salvação, qual seja, encerrar a vida afinal encontrando paz de espírito e felicidade verdadeira. Mas quem esteve a vida inteira do lado do bem pode desfrutar dessa completude durante toda a sua passagem aqui pela Terra, o que vale muito mais que um denário. 

   Muito bem, essa é uma mensagem da qual sempre me lembro e sobre a qual vale refletir quando surge a dúvida sobre seguir fazendo a coisa certa. O que posso dizer, em relação à minha experiência pessoal, é que tenho sentido que fazer o bem tem me ajudado muito a encontrar significado, alegria e felicidade em minha vida. Tenho feito bons amigos, passado por muitas coisas positivas, conseguido minha realização pessoal e profissional e, acima de tudo, tenho o coração em paz. Claro que coisas ruins me acontecem, como acontecem com todas as pessoas, sejam boas ou más. Fazer o bem não nos traz imunidade contra os percalços da vida, ainda que eventualmente possa ampliar o espectro de proteção. Mas a fé e a espiritualidade, aplicadas de forma concreta na vida, em busca do bem das pessoas que consigo ajudar em minhas limitações como ser humano, ajudam-me imensamente a superar as dificuldades que enfrento. Para mim isso faz toda a diferença e traz motivação para assim continuar, mesmo em cenários com tanta desesperança, como os de hoje em dia.

   Por fim, para quem continua em dúvida sobre se ainda vale a pena fazer o bem, quero dizer que escrevo essa postagem em um momento difícil, em que minha mãe está em uma cirurgia delicada, enfrentando uma doença que é das mais implacáveis no mundo contemporâneo. Nesse momento, com o coração apertado, vejo claramente que de tudo o que minha mãe fez nessa vida o mais importante foi o bem que ela sempre fez a mim, a nossa família, aos seus amigos e especialmente às inúmeras pessoas que ela nem sabia exatamente quem eram ou são. Minha mãe dedicou sua vida a fazer o bem. E valeu a pena porque é isso que me deixa com o coração em paz nesse momento tão difícil. Saber que ela deixou o mundo um pouco melhor do que encontrou naquilo que era de sua possibilidade é algo reconfortante. Essa postagem é uma homenagem a ela. Obrigado mãe. Esteja sempre com Deus e continue cuidando de todos nós.

   É isso, meus caros. Um grande abraço e até a próxima, tentando sempre seguir pelo caminho do bem!

Emmerson Gazda
www.artedaexcelencia.blogspot.com 

PS: depois que escrevi essa postagem minha mãe ainda esteve conosco durante 43 dias. Foi um período difícil, mas de convivência muito intensa. Tive a oportunidade de ler essa mensagem prá ela e saber que ela gostou do que escrevi. Já perto do fim, nos momentos em que esteve acordada e pôde nos dizer alguma coisa, manteve sua fé em fazer o bem e ainda teve forças para deixar algumas mensagens que gostaria de compartilhar com todos. Disse-nos ela, entre outras coisas: “vocês precisam aprender a viver com simplicidade, meus filhos”; (,,,) “beleza, elegância, nada disso importa. Importa ser uma boa pessoa temente a Deus”; (...) “vocês devem morrer para as coisas para viver de verdade. Não se apeguem às coisas materiais”. (...) E a mensagem final: “vivam com Jesus. Tenham sempre Deus com vocês. Eu estou com Deus”.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Em busca da simplicidade!

 Meus caros:

   A vida na sociedade atual é cheia de complexidades. Para qualquer lado que se olhe são muitas opções, escolhas a serem feitas, necessidades a serem atendidas, cuidados a serem tomados. O desenvolvimento trouxe consigo inúmeras possibilidades e também inúmeros riscos. Ambos tornam necessário estar constantemente atentos a tudo o que acontece ao nosso redor. 

   Além de todas essas coisas que fazem parte da nossa vida presencial, a tecnologia da informação nos traz à presença imediata e direta inúmeras outras questões e situações que acabam por ampliar ainda mais nosso espectro de atenções. Algumas pessoas, inclusive, já vivem hoje mais no mundo virtual do que no mundo físico, no qual acabam ficando só com o corpo. Mente e espírito se deslocam via tablet ou celular para todos os lugares do planeta, enquanto o corpo caminha pela rua ou senta para jantar sozinho, ainda que na mesa estejam outros "cyberviventes".

   A questão que coloco para reflexão hoje parte justamente dessa complexidade crescente da vida. Até que ponto ela nos afeta? Como as demandas parecem ser infinitas, o nível de estresse é alto, a correria intensa, não há tempo para tudo (ou quase nada) e no fim do dia, quando poderíamos ter algum tempo para nós é comum o estado de esgotamento. Não se consegue fazer mais nada a não ser não fazer nada. 

   Não fazer nada até pode ser bom, é importante que se diga, mas desde que seja por opção, não por imposição física. Porque quando é por puro cansaço, deixamos de fazer muitas coisas que são fundamentais para a nossa saúde física e mental. E não só para a nossa saúde. Também para o bem dos nossos filhos, amigos e familiares. Pense, por exemplo, quantas vezes você deixou de brincar com seu filho ou filha à noite porque estava muito cansado ou cansada? Isso afeta diretamente a criança e a família, pois esses momentos de brincadeiras são muito importantes para o fortalecimento dos vínculos familiares. E nos afeta diretamente porque no fundo todos os que amam seus filhos gostariam de ter disposição para brincar mais com eles. 

   Outro dia, aliás, conversando com um amigo que trabalha com autopeças e está sempre correndo, esbaforido, com nível altíssimo de estresse, ele comentou comigo que estava tentando alterar algumas rotinas em casa para poder ter pelo menos 1 hora tranquila para almoçar com sua filha de 5 anos, já que percebia que essa correria toda estava sendo ruim para ela. Aí eu disse para ele que não era só para a criança que era ruim. Também era muito ruim prá ele. E dei um exemplo do ramo de trabalho dele. Fiz uma analogia com um carro que anda o tempo todo em 6 mil giros de rotação. O que vai acontecer com o carro? Desgaste prematuro das peças e diminuição da vida útil, foi a resposta. Exatamente. E se ao invés do carro for o corpo humano, ou pior, o seu corpo humano vivendo em alta rotação? Essa é a questão.

   Muito bem, mas e aí, o que fazer? A maioria de nós, ou talvez todos nós, não tem ou mesmo não se sentiria bem em sair do meio desse turbilhão que é a vida moderna e voltar a viver como seus bisavós, em uma vida no campo, com a rotina definida pelo clima, o sustento vindo da terra e as necessidades com espectro mais limitado. Até porque a tecnologia já chegou no campo, as plantações viraram "commodities" e o clima está tão enlouquecido que nem sei se nossos bisavós viveriam com menos estresse no campo hoje do que é a vida na cidade.

   Pois bem, a verdade é que não podemos voltar à sociedade que se tinha há 50 anos atrás. E também não queremos isso, como regra. Ou alguém aí abriria mão do smartphone e confortos que se pode  ter no mundo moderno? Mas podemos modernizar algo que se tinha há 50 anos atrás, trazendo para as nossas vidas a busca pela simplicidade. 

   Claro que a vida nunca poderá ser tão simples como era há 50 anos atrás. Contudo, no meio dessa complexidade toda, existe uma série de situações que poderiam ser bem mais simples. Essa a ideia. E qual é a proposta? Procurar sempre diminuir as complexidades e ficar apenas com aquilo que seja efetivamente complexo. No resto a vida pode ser simples. Você vai me dizer que não há muito o que simplificar. Eu deixo um pergunta simples: será? Vou dar um exemplo de como complicamos as coisas. Um casal de amigos disse outro dia que gostaria de receber mais as pessoas em casa, mas tinha vergonha porque a casa era nova e não tinham conseguido ainda fazer a mobília que sonhavam. Eu pensei aqui comigo: nada mais natural do que terminar de construir uma casa e não ter dinheiro para a mobília. Aliás, geralmente o dinheiro acaba bem antes da hora da mobília em qualquer construção e a gente primeiro tem que pagar o financiamento prá depois concluir a decoração. Vejo, então, uma possibilidade de simplificar aí. Deixar de lado a vergonha, arrumar a casa mesmo que com móveis simples e usufruir da alegria que é confraternizar com os amigos. Isso é buscar a simplicidade. E se algum dos convidados achar aquilo muito simples talvez a solução não seja conseguir uma mobília nova e melhor, mas sim alguns amigos novos e melhores. Bem mais simples, apesar de não ser necessariamente mais fácil. 

   É isso, meus caros. Desafiadora essa reflexão de hoje porque envolve repensar nossos próprios paradigmas e tudo o que damos valor na vida. Será que estamos dando valor e nos preocupando com aquilo que é realmente importante? Ou estamos perdendo muito tempo com complexidades materiais e emocionais que não nos levam a lugar algum? A vida é muito curta para diminuirmos ela ainda mais rodando a 6 mil giros por coisas que no fundo talvez não sejam tão importantes. Enquanto isso o que poderia nos fazer realmente felizes e por mais tempo pode estar sendo desperdiçado. Pensemos nisso!

Um abraço,

Emmerson Gazda
www.artedaexcelencia.blogspot.com