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sexta-feira, 1 de março de 2019

Global Legal Hackathon: inovação tecnológica no ecossistema jurídico!

    Meus caros:

   No fim de semana passado (22 a 24/02) tive a oportunidade de participar, como palestrante, da edição de Jaraguá do Sul da Global Legal Hackathon, uma maratona mundial de inovação tecnológica no âmbito jurídica. O evento aconteceu de forma simultânea em mais de 40 países. O host, em Jaraguá, foi a Seccional local da OAB/SC, sendo realizado no Centro de Inovação. Na atividade foram formadas equipes para desenvolver do zero projetos que, em etapas sucessivas, concorrem com os demais projetos globalmente apresentados, tendo como objetivo maior chegar à grande final, em Nova Iorque. Em paralelo a essa atividade foi realizado um ciclo de palestras sobre casos de inovação tecnológica no ecossistema jurídico. Fui convidado para falar um pouco sobre o case do processo eletrônico da 4ª Região, o eproc, projeto do qual tive o privilégio de participar, junto com outros valiosos colegas, da sua gênese, lá no tecnologicamente longínquo ano de 2003. Muita coisa aconteceu na área de TI de lá para cá, mas as bases da inovação daquele momento ainda permanecem atuais, como experiência de inovação. Porque acima das tecnologias está a necessidade das pessoas trabalharem juntas e pensarem boas soluções. Só depois disso vem a tecnologia. 

   Mas nessa postagem não vou falar sobre a experiência do processo de criação e implantação do processo eletrônico na 4ª Região, o eproc. Vou falar sobre inovação tecnológica no ecossistema jurídico, que era o desafio proposto pelo Hackathon às equipes participantes e acaba sendo o desafio que se impõe a todos nós que buscamos inovação, tanto no meio jurídico, como no plano profissional geral e também em nossas vidas pessoais. Falarei sobre o eproc em um outro post, quem sabe o próximo. 

   Muito bem, a partir da proposta feita pelo Hackathon, destaquei 5 aspectos essenciais que devem ser observados nas reflexões sobre inovação tecnológica no ecossistema jurídico (e em qualquer outra área, a bem da verdade). O que temos de buscar são: 1) soluções; 2) de inovação; 3) tecnológicas; 4) para o sistema jurídico; 5) acrescido do elemento ECO, ou seja, com a preocupação ambiental inserida na solução. Vamos pensar em cada um desses tópicos.

   1) Solução: é aquilo que torna mais fácil realizar a atividade. Então qualquer projeto de inovação a ser desenvolvido tem que agregar valor, tornar mais fácil a realização da atividade. Ainda que no meio do caminho possam ter dificuldades, o resultado prático final tem que ser de criação de uma melhoria. Se no final tornar a coisa mais complexa ou difícil de fazer não será uma solução. Será um novo problema. Parece óbvio isso, mas na prática nem sempre acontece assim.

   2) Tecnologia: é preciso observar uma coisa importante nesse ponto. Ao pensar em tecnologia a gente imediatamente associa a uma solução de tecnologia da informação, do uso de computador (a proposta do Hackathon é, inclusive, nesse sentido). Mas tecnologia não é só a tecnologia da informação. Tecnologia é tudo aquilo que diz respeito aos métodos humanos de fazer as coisas. Então eu posso ter uma inovação tecnológica revolucionária no nosso ecossistema jurídico, ou mesmo na minha vida, sem precisar de nenhum elemento de tecnologia de informação. Isso seria possível, por exemplo, no plano jurídico, pela criação de métodos novos de diálogo que promovam a solução consensual, voluntária e imediata das divergências entre as pessoas, tornando a vinda ao Judiciário desnecessária em grande escala. Não há TI. Há inovação. E seria revolucionário. Isso destaca um detalhe que vale a pena prestar atenção: quando você criar uma ferramenta tecnológica de informação de inovação você pode incluir, no pacote, para uma solução ainda mais eficiente, a mudança na forma de trabalhar. Mudar o sistema de TI e junto com isso mudar a cultura humana de trabalho é um desafio grande. Mas pode ser uma grande oportunidade para um resultado de excelência. Portanto fica claro que tecnologia não se reduz a tecnologia da informação. Essa visão ampliada é fundamental quando se trabalha com inovação. 

   3) Inovação: para inovar é preciso sair do lugar atual. Pensar fora do padrão. No meio jurídico, por exemplo, existem muitas formalidades. Contudo, para pensarmos soluções inovadoras uma das coisas essenciais é deixarmos um pouco de lado nosso terno, a toga, nossas posições formais. Nesse ponto foi muito interessante observar como no Hackathon o ambiente era leve, descontraído, colaborativo. Todos de jeans e camiseta, conversando sem o doutor na frente. A roupa evidentemente não define nossas ideias. Podemos continuar de terno e toga. Podemos também continuar com o doutor e excelência. O que não podemos é deixar que isso diminua nossa capacidade de conversar abertamente e de forma a buscar novas soluções para os nossos velhos problemas. 

   4) Sistema jurídico: o conceito de sistema jurídico que temos de ter em mente aqui não é o de ordenamento jurídico. O conceito tem que ser mais amplo. Temos de pensar no sistema como o conjunto de normas jurídicas, claro, mas incluir os atores do sistema judicial, bem como também os usuários destinatários de todo esse serviço. Esse o conceito de sistema do ambiente de inovação. Engloba tudo o que faz parte e/ou interage dentro e/ou com o sistema. Visão sistêmica ampliada.  

   5) Elemento eco: o termo ECO traz a necessidade de preocupação com o impacto da solução em relação ao meio ambiente e, em última análise, para a comunidade, se observarmos que o conceito de meio ambiente é multifacetado. Não é mais possível pensarmos em soluções de inovação que desconsiderem a nossa relação como humanidade com o meio ambiente. Até porque qualquer solução que agrida ainda mais o meio ambiente, no longo prazo, não será uma solução. Sobre esse assunto tem um livro bem interessante do físico sistêmico Frijof Capra e do jurista Ugo Mattei, sob o título de “A Revolução Ecojurídica”. Quem quiser refletir um pouco mais sobre o assunto é uma leitura a ser feita. 

   Bom, era isso que tinha para falar hoje. Preciso apenas fazer uma observação especial para quem tem medo dessas coisas de inovação tecnológica, robôs, inteligência artificial, etc. Vou ser sincero: não adianta ter medo ou ser do contra porque isso está na categoria dos fatos inevitáveis. Vai acontecer, quer você queria, quer não queira. Aliás, já está acontecendo. Então o melhor que a gente pode fazer é estar aberto para conhecer essas novas tecnologias, buscar o aprimoramento sobre elas e começar a encontrar os caminhos para que, em meio a tantas inovações ligada à tecnologia da informação, a humanidade possa continuar sendo fundamental. Eu particularmente penso que o diferencial humano é a capacidade de se relacionar e, a partir daí, criar o impensável, desenvolver o que as máquinas não têm como fazer. A participação em maratonas como o Hackathon é uma grande oportunidade para quem não entende nada de inovação e/ou de tecnologia da informação começar a se inteirar sobre o assunto. Tem sempre uma boa alma para explicar as coisas para você nesses eventos. A partir daí não tem como a pessoa não se apaixonar por esse mundo fascinante da busca constante pelo novo, tanto na vida profissional, como pessoal. #ficaadica.

   Deixo, para finalizar, meus agradecimentos especiais ao Dr. Gustavo Pacher, Presidente da Seccional de Jaraguá do Sul da OAB/SC, e à Dra. Deborah Gumz Lazaris Pinto, Secretária-Geral Adjunta da Seccional de Jaraguá do Sul da OAB/SC, pelo convite e pela excelente recepção no evento. A interação institucional entre OAB e Poder Judiciário é sem dúvidas algo fundamental no processo de inovação tecnológica do sistema ecojurídico.

   Um abraço,

   Emmerson Gazda
   www.artedaexcelencia.blogspot.com

domingo, 23 de setembro de 2018

Você gosta de inovar?

Meus caros:

   Na semana que passou, mais precisamente no dia 19/09/2018, tivemos a inauguração da Unidade Avançada da Justiça Federal na cidade de São Bento do Sul-SC, que fica pertinho aqui da cidade em que vivo e trabalho. Participar da solenidade de inauguração seria um compromisso importante, mas normal de trabalho, não fosse por um detalhe: fui convidado para tocar e interpretar o Hino Nacional Brasileiro na solenidade.

   Na verdade foi mais um desafio que um convite porque até então eu jamais tinha tocado o Hino Nacional em qualquer solenidade oficial. O que eu havia feito, no primeiro semestre, fora tocar e cantar o Hino Nacional com minha filha e esposa na abertura das Olimpíadas internas do Colégio da filha. Apenas isso. Contudo, naquela ocasião percebi como as crianças, de 7 anos de idade, estavam empolgadas em aprender o Hino. E daí comentei com a amiga Juíza Federal Eliana Marinho, que está auxiliando na Corregedoria do Tribunal, sobre como a gente já tinha se acostumado com as solenidades e talvez não dava mais tanta importância para um símbolo relevante para nós, como Instituição e, de maneira geral, como cidadãos brasileiros.

   Não que o Hino Nacional seja algo sagrado. Mas é um símbolo. Um símbolo que certamente a maioria se recorda, da infância, como elemento de união das pessoas em torno de um objetivo em comum. Isso pelo menos quando a seleção entrava em campo para a Copa do Mundo de futebol. Entretanto parece que esse símbolo foi ficando meio opaco com o tempo, até mesmo na união em torno de algo que, do ponto de vista prático, é irrelevante para o país, mas sempre nos alegrou em conjunto: a torcida pela seleção canarinho.

   Dessa reflexão surgiu o desafio de tocar e interpretar o Hino Nacional na inauguração da UAA de São Bento do Sul-SC. Fui lá, com meu violão, e foi um momento especial na cerimônia. Especial por abrilhantar o evento. Mas particularmente especial para mim que, ao encarar essa atividade, um tanto quanto fora das minhas funções e habilidades de ofício (já que sou apenas alguém que aprendeu a tocar violão com aulas da mãe), senti o influxo positivo da satisfação de fazer algo diferente e novo.

   Estou contando essa história para vocês porque ela me fez refletir sobre uma outra faceta da importância de inovar. Todo mundo já ouviu falar que inovar é importante para a melhoria contínua dos processos de trabalho e do que você faz na vida ou com sua vida. Mas pouco se fala desse sentimento de satisfação e de renovação da motivação que inovar, mesmo que em coisas pequenas, traz para a pessoa. Do ponto de vista da realização pessoal essa é um das partes mais legais de inovar. Você sai dos seus limites, amplia horizontes, sente-se capaz de fazer coisas que antes duvidava. Percebe que mesmo com dificuldades é possível ir além. Isso tudo instiga você a pensar mais fora da caixa ou, em uma linguagem mais de redes sociais, pensar fora da timeline.

   Por isso a pergunta feita no título da presente postagem é muito interessante: você gosta de inovar? Se sua resposta for sim então nem preciso dizer nada porque com certeza você já sabe como isso faz bem para você. Se sua resposta for não, ou apenas de vez em quando, então o convite dessa postagem é para que você reflita sobre o assunto e tente começar a experimentar o prazer de inovar.

   Concluo dizendo que para mim a experiência foi tão positiva que até me inspirei a escrever uma nova postagem para o blog "A arte da Excelência", que estava meio esquecido nos últimos tempos. Espero não ficar mais tanto tempo sem escrever por aqui. Abaixo uma foto minha tocando o Hino Nacional em São Bento do Sul-SC para inspirar os que ainda ficam meio reticentes em encarar novos desafios. 

   Um abraço,

   Emmerson Gazda
   www.artedaexcelencia.blogspot.com

Hino Nacional foi interpretado pelo juiz federal Emmerson Gazda.
                                       Fonte: site da JFSC, autoria não indicada

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Qual a importância da busca pelo "flow" ou "estado de fluxo"?

 Meus caros:

   Na postagem de hoje vou falar um pouco sobre flow ou "estado de fluxo", na tradução para o português. Segundo a wikipédia flow "é um estado mental de operação em que a pessoa está totalmente imersa no que está fazendo, caracterizado por um sentimento de total envolvimento e sucesso no processo da atividade". O conceito foi proposto na década de 1970 pelo psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, PhD e professor universitário nos Estados Unidos.

   O conceito de flow tem sido aplicado em diversas áreas. Trazido para o ambiente da realização profissional, por exemplo, traduz um estado produtivo decorrente de experiências ótimas de fluxo de trabalho, em que há um perfeito equilíbrio entre a capacidade de produção e a quantidade, qualidade e intensidade dos desafios que são lançados. No flow existe um trabalho feito em harmonia, com alta excelência, motivação, concentração, energia e empenho, o que leva a um resultado acima da média, apesar do volume do trabalho eventualmente ser superior à média. Interessante notar, sob a ótica de uma gestão com foco no ser humano, que as experiências de flow no trabalho geralmente são associadas a momentos de grande satisfação com a atividade desenvolvida, uma vez que leva à plena realização profissional. A partir disso pode-se dizer que trabalhar em estado de fluxo é bem mais recompensador, mesmo em relação às situações em que a demanda é inferior a capacidade da pessoa em realizar as tarefas. Essa situação parece contraditória porque as pessoas em geral tem a crença que o trabalho será melhor quanto menos lhe for exigido, ou seja, quanto mais leve seja a carga de trabalho. Mas os estudos acerca do flow mostram que desafios baixos em comparação com a capacidade das pessoas não conduzem à satisfação e sim ao tédio e acomodação. Da mesma forma desafios muito acima da capacidade geram ansiedade e preocupação. Isso em qualquer área da vida, não só no trabalho. Nesse contexto, o equilíbrio entre capacidade e exigência, uma das características que gera o flow no trabalho (e na vida como um todo), é que leva a um estado excelente de desenvolvimento e satisfação profissional (e pessoal), gerando, como efeito colateral positivo, resultados acima da média. Os mesmos princípios valem para todos os setores das nossas vidas, podendo ser aplicados nas relações familiares, nas práticas esportivas ou no exercício de uma habilidade musical, por exemplo. 

   Muito bem, evidente que estou sendo reducionista na análise do tema ao abordá-lo em tão poucas linhas, mas o que quero fazer com essa breve e sintética introdução ao conceito de flow é chamar a atenção para a importância de encontrarmos um ponto de equilíbrio em nossas vidas, no qual tenhamos o desenvolvimento de habilidades em paralelo com o proporcional aumento das demandas que nos são exigidas. Isso torna relevante estarmos atentos ao fato de que para atingir o flow não basta desenvolver ao máximo nossas potencialidades. Se isso não for acompanhado da dosagem correta na definição de desafios, que estejam à altura do que podemos fazer, e de acordo com o que aspiramos fazer, o aumento da nossa capacidade pessoal pode ser frustrante. De um lado, com desafios baixos ou diferentes das nossas aspirações, haverá subaproveitamento, que vai gerar tédio e ao longo do tempo criar um ciclo de acomodação e relaxamento. Por outro lado, ir assumindo responsabilidades e compromissos acima da nossa capacidade ou fora de nossas aspirações levará a caminhos de preocupação e ansiedade. Isso é muito comum acontecer nos dias de hoje quando a pessoa não busca aperfeiçoamento (e aí o problema é que as demandas acabam ficando muito complexas com o tempo), não gosta daquilo que faz (e aí as demandas estarão sempre em descompasso com as habilidades) ou justamente quando a pessoa busca aperfeiçoamento, gosta do que faz e em razão disso, especialmente quando começa a ter reconhecimento, acaba assumindo compromissos acima de suas capacidades físicas. Nesse caso é possível que a pessoa passe antes por um período de flow e por estar tão motivada acabe indo além dos limites de equilíbrio, o que é prejudicial no médio e longo prazo. 

   Por isso a busca dos elementos que levam a um estado de fluxo são de suma importância na realização pessoal e profissional. Na medida em que conseguimos desenvolver nossas potencialidades e ao mesmo tempo ter um nível de desafios que seja o mais exatamente possível proporcional a essas potencialidades teremos condições de viver em flow, encontrando exato equilíbrio entre aquilo que queremos na vida e aquilo que podemos oferecer para a vida. 

   Evidentemente que não é fácil encontrar esse ponto de equilíbrio. Na teoria é algo muito simples, mas na prática é complexo. Contudo algumas atitudes diárias podem nos ajudar nessa tarefa. Nesse contexto, muitos de nós acreditam que a felicidade na vida vai existir quando puderem estar sentados na beira da praia sem fazer nada. Evidente que se isso acontece em um tempo de férias e descanso será motivo de felicidade. Mas se isso for uma constante pode ter certeza que em pouco tempo você ficará aborrecido e poderá ficar até deprimido por não ter nada para fazer. Então a sugestão é mudar sua visão das coisas e perceber que a satisfação virá não com o ócio absoluto, mas quando você encontrar algo que conduza por um caminho de realização de suas potencialidades no exato limite que elas existem. E dentro de um ciclo de melhoria contínua não se esqueça de que aquilo que está bom sempre pode melhorar. Não estou dizendo que você precisa trabalhar para se realizar. Essa é outra discussão. Estou dizendo que precisamos desenvolver nossas potencialidades e encarar desafios à altura dessas potencialidades. Isso pode acontecer no trabalho, mas também de outras formas. 

   Já para as pessoas que estão no lado reverso da moeda, trabalhando ou envolvidas em atividades com intensidade máxima, acima de seus limites e não conseguindo deixar de lado qualquer tarefa para aproveitar algumas outras coisas que são importantes na vida, a sugestão é diminuir um pouco o ritmo, definir aquilo que é prioridade e encontrar o ponto exato de equilíbrio que pode levar ao flow

   Enfim, é interessante como essa questão do flow é algo tão simples do ponto de vista conceitual, mas tão complexo do ponto de vista de ser alcançado. Talvez, na prática, seja apenas um ponto ideal que dificilmente se concretiza com frequência. Mas ter o flow como um norte é algo que me parece bem importante para conseguir resultados positivos no plano pessoal e profissional a longo prazo. 

   Vou concluir dando um exemplo sobre o que estou falando na área dos esportes. Quando era mais novo eu jogava basquete na escola. Treinava todos os dias, jogava campeonatos, fui campeão paranaense, enfim, tinha uma boa condição desportiva dentro de um nível amador no local em que vivia. Hoje, passados mais de 20 anos dessa época, ainda participo de um grupo de amigos que joga duas vezes por semana por 1 hora. Evidente que as condições atléticas não são as mesmas, mas nossos jogos são bastante disputados e divertidos. A gente acaba se empolgando com muitas jogadas que fazemos e em vários momentos até se sentindo como se fosse uma estrela da NBA. Ou seja, nosso jogo acaba entrando em flow. E sabe porque isso acontece? Certamente não é porque deveríamos estar todos na NBA. É apenas porque no nosso grupo de basquete todos estão mais ou menos no mesmo nível de habilidades, exigências, concentração e objetivos. A partir disso cada um consegue desenvolver o máximo de seu jogo e isso é suficiente para atender a demanda que é nos divertirmos com o jogo. Agora, no começo do ano o pessoal do grupo resolveu participar de um campeonato que teve na cidade. E o resultado foi uma frustração geral porque os outros times eram muito melhores que o nosso. Ou seja, não teve flow. As demandas foram superiores ao que eramos capazes de fazer e os placares desfavoráveis não nos animaram a participar de novos campeonatos. Então voltamos aos nossos jogos normais duas vezes por semana e agora estamos em flow novamente. Esse exemplo tem vários aspectos que poderiam ser destacados, mas me parece que um importante é que você não precisa ser o melhor do mundo para viver em flow. Precisa apenas encontrar o ponto exato que te leva ao flow ou estado de fluxo. Eis o desafio, com benefícios disponíveis de imediato para todos. 

Um grande abraço,

Emmerson Gazda
artedaexcelencia.blogspot.com

sexta-feira, 31 de março de 2017

É possível se prevenir contra riscos futuros da aposentadoria pública?

 Meus caros:

   Estive hoje em Curitiba participando de um colóquio sobre a reforma da Previdência Social. O evento foi na sede da Justiça Federal do Ahú e tive a oportunidade de apresentar algumas reflexões sobre cenários futuros da previdência pública, em especial do regime de previdência dos servidores públicos federais. 
   
   O foco da minha abordagem não foi a proposta de reforma que está em debate no Congresso, ainda que ela tenha servido de base para uma percepção daquilo que o Poder Público está entendendo como necessário para acabar com o déficit da previdência. O que procurei trazer foi uma reflexão baseada em evidências econômicas (não em teses jurídicas), tentando antecipar cenários e pensando a longo prazo (10, 20, 30 anos para frente).

   O objetivo, com essa tentativa de visão além do que está mais palpável aos nossos olhos, foi apresentar algumas preocupações sobre como a situação pode se tornar difícil mais adiante nas finanças individuais de cada um, se não houver escolhas atuais que mitiguem os riscos decorrentes do que possa acontecer no futuro. 

   É claro que qualquer abordagem que busque antecipar cenários a longo prazo terá boas chances de errar em muitos pontos. Mas em termos de precaução quanto a cenários econômicos futuros ruins, o risco que existe se você tomar as cautelas necessárias será ter uma sobra de recursos mais adiante se as coisas forem melhores do que o esperado. Agora, se os cenários ruins acontecerem, e você não se prevenir, aí não terá muito o que fazer na hora em que mais vai precisar de disponibilidade financeira, ou seja, quando tiver mais idade. 

   Infelizmente minhas reflexões não trazem notícias muito boas. Temos uma ausência de segurança econômica e isso traz uma insegurança jurídica, posto que na história, em um conflito sério e real entre econômico e jurídico, o viés econômico acabou em regra prevalecendo. 

   É claro que coletivamente cada grupo tem lutado para defender seus direitos e tentar achar soluções para que não seja necessária a redução de direitos. Há teses jurídicas que mostram que não há deficit da previdência, por exemplo. Outras que mostram soluções diferentes que poderiam ser adotadas. Mas do lado econômico há muitas pessoas sustentando que o déficit é real. 

   Quem está com a razão? Essa a reflexão que cada um de nós precisa fazer para definir o que vai fazer em termos de prevenção individual contra os riscos do que pode vir pela frente. Particularmente eu concordo, do ponto de vista jurídico, com muitas das teses jurídicas que são defendidas quanto à questão. Mas também vejo fundamento econômico em muitas teses econômicas sobre o assunto. Por isso, como estou falando em prevenção contra riscos futuros, considero relevante não nos filiarmos a uma corrente ou outra, mas sim olhar para o pior cenário que tenha razoabilidade e tentar evitar os riscos dele decorrente.

   Ou seja, quando falamos em prevenção contra riscos futuros não podemos definir que algo está certo e esquecer as outras possibilidades por complete. Temos que considerar todas as possibilidades que tenham alguma probabilidade razoável de estarem corretas (ou seja, previsões de futuro com chances de estarem certas) e tomar as cautelas necessárias a partir dos cenários mais desfavoráveis. Se você estiver preparado para o pior, estará bem em qualquer situação. É a aplicação de um antigo ditado militar: "ore para a paz, mas esteja preparado para a guerra". 

   Muito bem, nesse contexto o que podemos fazer individualmente, como servidores públicos (e também vale em alguns aspectos para a iniciativa privada) para nos prevenirmos contra os riscos futuros da previdência pública, considerando o cenário ruim traçado por muitos economistas, de que o déficit previdenciário continuará crescendo, mesmo com a reforma proposta? 

   Basicamente são três coisas que podemos fazer: i) poupar, fazendo uma reserva para o futuro (essencial em todos os casos); ii) adotar uma postura diferente em termos de administração das finanças pessoais, abandonando a ideia corrente de que o servidor público tem uma boa aposentadoria garantida (os cenários futuros mostram grande risco quanto a isso); iii) analisar a possibilidade de opção incentivada trazida pela Lei n. 12.618/12, quanto a desde logo deixar o regime da integralidade e ficar com benefício vinculado ao teto do INSS (pagando também contribuição apenas pelo teto do INSS). 

   Para quem se interessar em analisar com mais detalhes a reflexão que faço sobre o assunto elaborei um texto um pouco mais longo, no qual apresento minha visão sobre a questão. O texto aborda o assunto a partir do paradigma da Magistratura Federal, que era o público-alvo do evento de hoje. Contudo permite reflexão para todos os que estão na carreira pública, em especial os que estão na área federal e com perspectiva atual de aposentadoria integral acima do teto do INSS. Caso seja de seu interesse clique aqui para visualizar o artigo completo em PDF. O objetivo não é lhe convencer de nada, mas apenas que possa refletir e pensar criticamente sobre os assuntos tratados. 

   Para os que não se interessarem por uma análise mais aprofundada do assunto o que quero deixar da presente postagem é a ideia de que devemos sempre tentar olhar mais adiante para podermos fazer boas escolhas a longo prazo. O olhar além do alvo é o que pode fazer a diferença entre o ser bom e o ser genial, como diria Schopenhauer. 

Um abraço,

Emmerson Gazda
www.artedaexcelencia.blogspot.com